Assim que se confirmou o diagnóstico de que o ex-presidente Lula tem câncer na laringe, começou a enxurrada de mensagens oportunistas.
De um lado, sugerem que o presidente se trate no SUS, numa clara alusão ao estado lastimável em que se encontra a saúde pública brasileira - culpa não só de Lula, mas também de seus antecessores.
De outro, os patrulheiros politicamente corretos classificam a campanha como de mau gosto, porque não é de bom tom fazer piada com uma doença tão terrível. Muitos acrescentam, em suas críticas, dramáticas histórias reais e depoimentos pessoais.
Antes de mais nada, ninguém está fazendo piada. O estado lastimável da saúde pública no Brasil não é caso de piada, é caso de polícia. Se o povo quer Lula sendo tratato pelo SUS é porque, como presidente do país por oito anos seguidos, ele teve a chance de melhorar as condições de tratamento da população - o que não fez.
Se hoje uma grávida perde o bebê por falta de atendimento, é porque milhões foram desviados pela máfia dos sanguessugas - e Lula não sabia. Se um idoso não pode se tratar no sistema privado, é porque sua aposentadoria é o que sobra depois que os funcionários públicos recebem seus benefícios integrais - e Lula multiplicou os funcionários públicos em seus governos.
Se para você esta comparação é uma piada de mau gosto, o que você acha que as pessoas que se tratam no SUS pensam? É você quem está dizendo que o lugar onde eles buscam tratar seus problemas de saúde é uma piada. E que eles podem tentar a sorte lá, mas o ex-presidente não. Eles não puderam mudar a qualidade do serviço. Lula pôde, mas não fez. Isso sim, é de mau gosto.
Não acho que Lula deveria se tratar nos hospitais que estão por aí. Ele deveria se tratar nos hospitais que não estão por aí. Nos que foram pagos, mas nunca saíram do papel. Nos enormes elefantes brancos que foram construídos à toa, equipados para nada. Novíssimos tomógrafos e raios-x recém-lançados empoeirados numa sala sem energia elétrica. Modernos monumentos à corrupção que nunca atenderam um paciente sequer. Medicina de última geração para tratar Lula e sua corriola. Sem médicos, sem remédios, sem eletricidade, sem manutenção. Mas com todas as comissões em dia!
Ou como opinou O Inopinado: "A atitude digna não é desejar que o Lula se foda no SUS, mas sim que o SUS deixe de ser uma merda! (perdoem o português erudito)". Perdoado.
Michael J. Fox: participações especiais em The Good Wife, sem coitadismo
Bem disse meu amigo Victor Hugo, sugerindo que se aproveite o momento para fazer campanhas antifumo, para conscientizar a população sobre os efeitos nocivos do cigarro.
Lula seria um ótimo garoto-propaganda para isso e teria a chance de usar seu enorme carisma para algo positivo.
Quando Reagan teve Alzheimer, o país mobilizou-se para desmistificar a doença e aprender a cuidar de seus pacientes. Michael J. Fox e Muhamed Ali fizeram o mesmo pela doença de Parkinson.
As ONGs dos companheiros e dos comedores de criancinhas poderiam dar exemplo e se unir em torno deste nobre objetivo - em vez de sustentar instituições fantasma em benefício próprio e de seus chegados.
Pararelamente a isso, reforça-se o sinistro hábito de endeusar os mortos, mesmo antes de eles falecerem. Recentemente, o coadjuvante Itamar Franco foi promovido a um dos maiores estadistas que o Brasil já teve. Michael Jackson virou ídolo de todos e Amy Winehouse tornou-se unanimidade.
Não sou como o mineiro do Nélson Rodrigues Otto Lara Resende, solidário só no câncer. Minha solidariedade independe de diagnóstico, de patologia. Gosto independentemente da proximidade do juízo final. Ou não gosto.
Todos os parâmetros relaxam após o último suspiro. No caso de Lula, muitos estão caindo bem antes. Peço a gentileza de não fazerem o mesmo comigo. Gostem de mim agora ou não gostem jamais. Não me perdoem quando eu morrer. Aproveitem agora, enquanto ainda estou vivo. Amem ou odeiem, mas não mudem por minha condição. É assim que eu faço. Nunca gostei de Lula, nunca dificilmente gostarei. Vivo ou morto.
