Eu fico incrível com a forma como a mídia trata os bandidos. De todas as castas e das mais variadas espécies, há sempre um eufemismo ou uma palavra carinhosa para descrever toda a sorte de barbaridades. Nunca falta, também, um floreio textual para disfarçar uma aberração jurídica literal. Dois exemplos rápidos para ilustrar a minha indignação:
Um sujeito mata cinco pessoas, é preso, confessa e vai a júri popular. O caso comove a população e, no Jornal Nacional, William Bonner fecha a matéria dizendo, seriíssimo: "Se for condenado, o réu poderá pegar até 150 anos de cadeia". Você fica com a sensação de que a justiça foi feita e vai dormir, aliviado com essa absurda mentira.
Sim, mentira. Porque o Código Penal brasileiro diz que uma pena não pode ultrapassar 30 anos (salvo engano meu). Se o preso for réu primário e tiver bom comportamento na cadeia, pode até sair após cumprir um sexto da pena (OK, não sei se isso se aplica a um homicídio quíntuplo).
- Vote contra mim para você ver...
O outro exemplo é muito mais frequente do que gostaríamos - e menos macabro também. Em casos de corrupção, a imprensa é ainda mais condescendente.
Vejamos o caso de Jaqueline Roriz, filmada recebendo suborno. A matéria do jornal O Globo diz que ela é acusada de receber propina. Ora, ela não é acusada de receber. Isso não é uma hipótese, nem uma suposição. Ela recebeu propina! Está filmado! Está provado!
A matéria deveria dizer que ela recebeu propina, que ela foi subornada, que ela é corrupta. Não cabem o eufemismo nem o benefício da dúvida. A imprensa precisa ser mais enérgica, mais acusatória. Caso contrário verá mais um caso do clã Roriz ser varrido para baixo do tapete, como tantos outros que se acumulam na recente história do País.
Episódio semelhante aconteceu com João Paulo Cunha, que recebeu suborno no escândalo do Mensalão e, ainda pior, confessou que recebeu. Mas nada lhe aconteceu. Por causa de uma Imprensa covarde e de um corporativismo sujo.
O mesmo corporativismo que acaba de livrar Jaqueline de qualquer punição. Seria algum detalhe jurídico? Uma falha no processo? Não, estava tudo lá, filmado. Simplesmente os deputados que deveriam votar sua cassação, preferiram sua absolvição. Simplesmente porque têm medo de ser acusados de corrupção também, caso houvesse vingança ou revanche. Ou seja, bandido livra bandido. Todos cuidando de seus rabos emaranhados. Os que devem, temem - e muito!
Nada menos do que 265 deputados disseram que é legal receber maços de dinheiro diante das câmeras. Que isso é algo mais do que normal. Ao menos para eles. Deputados covardes que se escondem atrás de uma votação secreta. Representantes que não têm a coragem de mostrar o que fazem a seus representados.
Uns dizem que é porque ela não era deputada ainda, quando recebeu seus trinta dinheiros. Que bandidagem tem prazo de validade e que você pode escolher a data de nascimento do seu caráter. Ou que se nunca quiser ser honesto, tudo bem, porque quem também não é vai te salvar nos tribunais.
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Minha sugestão? Que os chamem pelo nome: corrupto, bandido, ladrão. No caso do assassino, que digam que mesmo sendo condenado a seiscentos anos de cadeia, só ficam trinta na folha - e que bem antes disso o criminoso será libertado.
Não prego a volta do macartismo, da acusação vazia e irresponsável. Esta destrói muito mais do que constrói e não dá chances de recuperação. A Escola Base está aí para não nos deixar esquecer - embora muitos não se lembrem do que se trata.
Mas há o réu confesso. Há o que foi filmado cometendo o seu crime. Quem lhe absolve deve tanto quanto ele.
Foi assim com Guilherme de Pádua, que assassinou uma colega de trabalho a tesouradas e hoje é réu primário. A culpa é dele? Claro que não. É de uma lei que diz que a vida é assim. É do Jornal Nacional que diz que ele vai apodrecer na cadeia sabendo que em breve ele poderá começar de novo.
Que você será acusado na primeira página, mas que quando a ridícula memória do brasileiro não lembrar mais de você, você pode ir para casa tranquilo e seguir sua vida. Que você será liberado e perdoado por todos aqueles que cometeram semelhante crime. Que ser considerado bandido num país de bandidos é tão fugaz quanto nossa memória de peixinho dourado.
Perto deles Ali Babá era primário, iniciante, bobinho até. Só tinha 40 ladrões consigo. Os de hoje vêm acompanhados de uma Imprensa que finge que não vê, de centenas que os absolvem e milhões que os elegem.
ADENDO: OK, Jackie Roriz não teve seu mandato cassado. Ainda assim ela é corrupta, não é? Afinal, foi filmada recebendo dinheiro sujo. Isso não vai ser investigado??
