Ainda não havia me dado conta de como os dois assuntos mais comentados ultimamente estavam tão intimamente relacionados.
De um lado, os moradores de Higienópolis rechaçaram a construção de uma estação de Metrô em seus domínios, sob a alegação de que não queriam gente diferenciada a frequentar suas calçadas.
De outro, um livro didático oficialmente adotado pelo Ministério da Educação prega o uso incorreto da Língua Portuguesa, protegendo-o sob argumento de que é normal falar assim e, às vezes, a norma culta pode sofrer preconceitos.
Tais posturas, diametralmente opostas, espelham um país de moral esquizofrênica. Nos bairros nobres pregam-se direitos, desde que seja na vizinhança alheia. Na sua própria, que se use a entrada de serviço.
Igualdade representa apenas uma palavra de efeito, um slogan burguês, um disfarce autorizado para perpetuar a desigualdade. Escora-se nos eufemismos que adoramos cultivar, como moreninho para negro ou limpinha para a doméstica boa de serviço.
A este canhestro vocabulário soma-se agora gente diferenciada, para esconder o pobre, camuflar a gentalha - tanto nas conversas quanto nas atitudes.
Já o Governo, por meio de seu Ministério da Educação, defende o indefensável. Ensinar que artigos e substantivos podem discordar à vontade é jogar na lama o trabalho sério de seus antecessores. É caçoar de Cristóvam Buarque, Darcy Ribeiro e Pedro Calmon, por exemplo.
A autora da presepada justificou-se, ainda, separando a língua oral da escrita. Mas, como bem observou Carlos Eduardo Novaes, quando você põe a primeira no papel, ela vira a segunda.
Quanto tempo ainda precisaremos para nos livrar dos resquícios de um ex-Presidente que celebrava a ignorância e ressaltava a estupidez? Quantas outras gerações precisarão padecer da pobreza enquanto usa-se a Educação como forma de dominação? Porque é isso que a atual cartilha prega. Povo burro equivale a povo alienado, que vota em malufs e tiriricas. Que aplaude o engodo da Lei Ficha-Limpa.
Pois é exatamente este o ponto em comum entre os moradores de Higienópolis e a Gramática do Governo: uma ignorância sem tamanho.
ATUALIZAÇÃO 27/05/2011: minha amiga Tatianna fez uma pergunta interessante: o que vai cair na prova do ENEM? Os livros ou os livro?
