Eu havia prometido não escrever sobre a tragédia ocorrida numa escola em Realengo, Rio de Janeiro. Aí dei uns pitacos no excelente texto do meu amigo Danilo Balu, fiquei remoendo o assunto e pronto, não pude evitar...
Duas coisas chamam a minha atenção numa tragédia dessas:
A primeira é a velocidade com que soluções estapafúrdias começam a surgir, como panaceias prontas para salvar o mundo, embora já tenham fracassado diversas vezes. Desarmamento é uma delas. O crime ocorrido no Rio foi uma brutalidade, mas é uma pequeníssima fração dentro da gigantesca estatística de homicídios no Brasil.
Isso não se compra em lojas
Os criminosos do país armam-se com fuzis, metralhadoras, pistolas 45 ou 9 mm, granadas e outros artefatos de uso (teoricamente) exclusivo das Forças Armadas.
Ladrão não compra arma na loja. Traficante compra arma do exército, da polícia. Quem ganha dinheiro na venda de armas não é o comércio. É o contrabandista. É quem deixa a arma entrar no país. É quem desvia carregamentos militares.
A segunda coisa é a pressa em apontar algum culpado pela tragédia. Jogar para longe, livrar-se do peso destes cadáveres. Porque, no fundo, você sabe que a culpa disso é sua. Mas não pense que vou fazer o longo caminho das injustiças sociais ou da apatia coletiva esporadicamente sacudida por estes acontecimentos. A relação de culpa é muito mais direta e real do que você gostaria de imaginar.
A começar pelo financiamento do crime que você quer combater com um desarmamento tolo que não te atinge. Mas comprar a maconha ou cocaína do fim de semana, o DVD pirata e jogos de Wii, subornar o guarda e pagar pouco para a sua diarista atinge muito mais crianças do que as que morreram em Realengo.
Depois vem esse seu interesse mórbido pelos detalhes de uma tragédia como essa. Quando vi o que tinha acontecido, desliguei a TV, porque todos os canais falariam a mesma coisa. Até os debates esportivos tratavam disso. A única coisa que eu li a respeito foi que alguém entrou atirando numa escola e matou uma dúzia de crianças. Por que eu preciso saber mais do que isso? Por que você precisa?
Se ele usava drogas, sofria bullying na escola, foi abusado pelo padrasto, comia passarinhos vivos - que diferença isso faz para você? Ou ainda, querer saber o nome e a idade de cada criança morta, quais os seus sonhos que nunca se realizarão, a comida que mais gostava, quanto amigos tinham no Facebook Orkut, quantos tiros levou, quanto tempo demorou para morrer, onde foram os tiros?
- Oba, hoje tem massacre na TV!
Se você ficou horas na TV saboreando cada um desses detalhes, você é sádico. Sério, você tem problema. Você gosta de ver o sofrimento alheio. Não só das crianças, mas das suas famílias, que já devem ter respondido perguntas como: "Você gostava muito do seu filho morto?", "Você está sofrendo essa perda?", "O que vai ser da sua vida agora?".
Por que você acha que é isso que os repórteres perguntam? Não é só porque eles são uns despreparados sem-noção. É porque é isso que você gosta de ver e ouvir. Você gosta do close na mãe chorando, no pai desesperado. Como disse, você é sádico - e isso é um problema e tanto!
Mas isso tudo foi só para chegar à seguinte pergunta: foi esse cara de Realengo que inventou isso de entrar numa escola atirando e matar todo mundo? Claro que não. Ele simplesmente imitou algo que viu na TV. Algo que a sua audiência sádica faz passar diariamente.
Só que algumas pessoas, tão sádicas quanto você, além de gostar do que estão vendo, também pensam que aquilo pode ser uma boa ideia. Algumas pessoas se identificam com o assassino, porque seu perfil é exaustivamente destrinchado por pseudoespecialistas. E aí, algumas pessoas começam a ter ideias.
Algumas pessoas vão conseguir uma arma - que não será comprada numa loja! - e buscar a mesma fama que a TV proporcionou ao seu psicopata favorito. E mais uma vez você, sádico, assistirá admirado sem imaginar que foi a sua audiência que deu ideias para mais uma chacina.
Qual seria, então, a solução para isso? Simples: censura. Não aquela para a qual você torce o nariz, a que vem do governo. Mas a que vem de você mesmo. Não assista a esses programas, não compre os produtos anunciados nesses programas. Não compre jornais, nem as revistas semanais.
Mas você não precisa fazer isso agora. Pode esperar a próxima chacina, porque a história mostra que depois que acontece a primeira vez, várias outras vêm a seguir.
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