Corre aí no twitter um movimento que pretende tirar do ar um perfil denominado @clubedomacho, administrado por ninguém menos do que John Rambo, direto do Vietnam. Sua bio ainda informa: "Cuspo na rua. Vejo futebol. Não peço licença. Defendo a cura da TPM dando mais louça para lavar".
Diariamente o @clube profere doses extremas de humor machista do quilate de:
"20hs é o horário q as vagabunda deixam o rango no fogo e vão ver novela. Presta atenção no fogão, cachorronas"
"Feministas, apoiamos vcs na busca por seus direitos! Protestem, façam passeata, mas levem vassoura pra limpar td depois"
"Jornalista mulher falando de esportes é só fofoca e comentário sobre vida pessoal de jogador e uniforme q não combina"
"Devia ter monitor na barriga da mulher passando ESPN. E Sportv nas costas pra qdo comesse ela de 4"
As frases são tão exageradas que, sinceramente, não entendo como alguém pode ficar indignado - neste caso, indignada. Pois tem mulher que fica. E homem também (bem, há controvérsias).
O fato é que John Rambo escreve coisas tão absurdas que é difícil não rir - que o digam seus mais de 57.000 60.000 seguidores, muitos dos quais do sexo feminino, aliás. O @clube leva o estereótipo da mulher tão ao extremo, que você precisa concordar com tal modelo para se indignar.
Logo, quem fica irritadinha com suas cafajestices é porque ainda não conseguiu se livrar totalmente desta figura feminina de segunda classe. Quem acha que tais gracejos ofendem sua honra é porque precisa lavar sua honra no tanque todo dia, depois de deixá-lo de molho em água sanitária. Quem se incomoda com isso, ainda acha que precisa queimar um sutiã por dia.
Não sei o que este movimento anti@clubedomacho pretende, mas já vi um dizendo que tinha ido à delegacia fazer um boletim de ocorrência para buscarem o IP do autor. Outras dizem que as mulheres que seguem o perfil são traidoras. As mais radicais entendem que o perfil deve ser bloqueado.
Bom, onde eu moro isso se chama censura. Censura contra um cara que faz piada com uma minoria (aliás, por que se chama minoria se no mundo há mais mulheres do que homens?).
Ora, boa parte das piadas envolvem minorias. Mulheres, negros, judeus, portugueses, nordestinos, gays, anões, gagos, fanhos. Devo confessar que rio da maioria dessas piadas. Sei um monte delas e adoro contá-las. E quem me conhece sabe que vale a pena...
Este tipo de piada faz graça com aquilo que é senso comum. Ela alivia tensões cotidianas geradas pelas diferenças. Se de alguma forma eu for proibido de fazer piadas com negros ou judeus, aí sim começarei a olhar para eles de maneira diferente. Aí sim perceberei que eles não são parecidos comigo - porque há uma lei que os protege e não há nada a me proteger.
Contar piadas sobre mulheres (ou nordestinos) nada tem a ver com a forma como você efetivamente as vê. Você está apenas explorando a imagem que a sociedade cultiva. Assim como faz a publicidade. Caso contrário, se isso não fizer parte da cultura popular, ninguém vai entender a sua piada. Mas se este tipo de piada é proibido, então ninguém mais fala nisso. E o estereótipo se perpetua.
Talvez as mulheres não percebam que a melhor maneira de acabar com esta imagem infeliz é fazendo piada dela. Mostrar o quão ridícula é esta representação. E deixar que a opinião pública julgue.
Se for realmente grosseiro e ofensivo, as pessoas deixarão de seguir. Mas se for apenas engraçado, os seguidores aumentarão. E @oclubedomacho parece tão certo desta segunda opção, que passou a reproduzir os xingamentos que recebe - ao que parece o @clube não pode xingar, mas as ofendidas podem.
No fim das contas, que se fortaleça a liberdade de expressão. Se você não gosta, não segue, não lê. Mas tire a carapuça antes.
Tenho um amigo, por exemplo, que não gosta de argentinos. É direito dele e ele não tem nenhum problema em dizer isso. É preconceito? Lógico que é. Provavelmente ele conheceu alguns argentinos, não gostou e pronto. Tem uma ideia formada. Nenhuma lei vai obrigá-lo a falar bem deles, dizer que ama Buenos Aires e comer alfajores. E se fizer, ele vai detestá-los ainda mais. Pode ser que ele mude de ideia? Claro que pode. Mas tem que ser antes de fazerem esta tal lei.
Não gostou? Fecha o browser, desliga, deleta. Quer brigar com alguém? Vai procurar alguma coisa importante. Vai defender alguém que precise. Vai fazer algo de útil.
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ATUALIZAÇÃO: John Rambo já reagiu ao movimento feminista: O que é machismo?