A maioria das minhas leitoras sabe que não tenho filhos. Talvez até por isso eu tenha algumas opiniões um pouco inconsequentes sobre temas controversos, uma vez que quando você torna-se responsável por algo além do seu umbigo, sua visão de mundo e seus valores deixam de se considerar o próprio centro do universo.
Volta e meia, porém, encontro nos escusos textos que leio algum tipo de ensinamento, daqueles que passamos, orgulhosos, aos nossos prolíficos amigos.
Ainda que eu não possa ter verificado, de fato, a precisão deste ou daquele conselho, alguns parecem-me suficientemente adequados para que eu decida dividí-los.
Adianto, entretanto, que isso não gera, de minha parte, o compromisso de garantir-lhes eficácia ou assegurar-lhes ausência de efeitos colaterais. Mesmo assim, vamos a eles:
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ESFORÇO versus APTIDÃO: pais e educadores sempre procuram elogiar as crianças toda vez que uma tarefa é cumprida a contento. A forma como isso é feito, no entanto, pode representar uma enorme diferença na maneira como o pimpolho haverá de reagir frente aos desafios seguintes.
Quando você diz a uma criança que ela finalizou algo corretamente porque ela é inteligente, imediatamente ela associa aquilo a algo inato, natural. Ser ou não inteligente independemente de esforço adicional. O resultado disso é que tanto os que têm quanto os que não têm a tal inteligência sentem-se igualmente desmotivados a se esforçar mais - afinal o que vale, no final das contas, é nascer inteligente. Ou não.
Em 1998 as pesquisadoras Claudia M. Mueller e Carol S. Dweck, da Universidade de Columbia, escreveram o interessantíssimo Praise For Intelligence Can Undermine Children's Motivation and Performance (PDF), através do qual descobriram que crianças da 5a série, quando elogiadas pela inteligência, concentravam-se mais na performance, ao passo que seus pares aplaudidos pelo esforço buscavam aprender mais.
No estudo em questão, 128 alunos entre dez e doze anos de uma escola (70 meninas e 58 meninos) eram submetidos a uma bateria de dez questões para avaliar suas capacidades de resolver problemas.
Divididos aleatoriamente em três grupos, elas poderiam receber um elogio após terminar a primeira série de testes, a saber:
.: os inteligentes eram elogiados por terem resolvido os desafios por suas habilidades naturais;
.: aos esforçados parabenizava-se-lhes pela aplicação;
.: e o terceiro grupo, coitado, não ouvia qualquer feedback (esse era o grupo-controle).
Na segunda fase do estudo, as crianças recebiam uma relação de questões bem mais difíceis do que a anterior, na qual, invariavelmente, saíam-se bem pior. Todas elas recebiam a triste notícia de que acertaram pouco mais da metade dos problemas (independentemente do escore real). Em seguida, elas próprias avaliavam seus níveis de persistência, o quanto gostaram de resolver os problemas, a qualidade da sua performance e os motivos pelos quais falharam.
Finalmente, elas recebiam uma terceira bateria de exames. Nas entrevistas de encerramento, as pesquisadoras asseguravam às crianças que a segunda sequência de testes era bem difícil para a sua idade, correspondendo a alunos de 7a série e, portanto, mesmo acertar apenas uma delas já poderia ser considerado um grande feito.
Resultados e Análises: o primeiro teste estatístico realizado nos resultados mostrou que o grau de inteligência da criança não influenciava na forma como sua performance era alterada pelo tipo de elogio, ou seja, independentemente de ela ser mais ou menos inteligente o tipo de elogio surtia o mesmo efeito - positivo ou negativo. O segundo teste mostrou que as crianças atribuíam seus resultados de acordo com o elogio recebido, isto é, os inteligentes creditavam sua nota à sua inteligência, enquanto que o esforçado indicava seu esforço como primordial.
Já nos seus objetivos pessoais, as crianças inteligentes disseram preferir tarefas com alguma medida de performance (67%), enquanto que as esforçadas gostavam mais das que lhes proporcionassem algum tipo de aprendizado (92%) - no grupo controle os números foram equivalentes. As crianças inteligentes queriam, assim, algo que lhes reforçasse a imagem de inteligente, enquanto que as esforçadas queriam aprender coisas novas.
Tanto assim, que numa variação posterior do estudo as crianças poderiam escolher, após o fim do estudo, se queriam ver como as outras crianças haviam resolvido os problemas ou ver um indicativo de performance geral do grupo.
86% das crianças inteligentes quiseram ver os resultados dos seus colegas, enquanto que 62% dos esforçados preferiram aprender como seus coleguinhas solucionaram os testes.
A parte interessante é que, quando falhavam nos testes mais difíceis, as crianças inteligentes atribuíam a falha à falta de habilidade, enquanto que as esforçadas culpavam o pouco esforço. Crianças elogiadas pela sua inteligência tendem, portanto, a correlacionar fracasso com burrice, fazendo uma perigosa distinção tanto para os outros quanto para si próprias.
Outra consequência desta observação é que as crianças inteligentes mostraram menores níveis de persistência do que as esforçadas, exatamente por julgarem que não adianta insistir em algo para o qual você não está preparado. Ademais, as crianças esforçadas revelaram um grau de satisfação em realizar as tarefas muito maior do que as inteligentes.
No quesito de superação da adversidade (falhar feio na segunda bateria de testes), outro resultado interessante: as crianças inteligentes tiveram resultados inferiores na terceira bateria de testes errando, aproximadamente, uma questão a mais, enquanto que as esforçadas melhoraram suas notas acertando, na média, mais 1,2. Seria esse um indício do teor motivacional embutido no tipo de elogio que se faz. Para responder isso uma segunda variação da pesquisa foi feita.
A leitora mais interessada - e versada no idioma inglês - poderá acompanhar no link do início deste tópico as seis variações de estudos realizadas na pesquisa, observando as interessantíssimas conclusões. Mas duas lições básicas podem ser tiradas dos seus resultados: crianças que vêem méritos no próprio esforço desenvolvem mais interesse em aprender mais; e, as que se consideram inteligentes têm mais medo de falhar e, por isso, evitam ser postas a prova em situações onde podem não se sair tão bem.
Inspiração ou pagamento? (fonte: Flick/tomono♪♪)
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O PRÊMIO QUE SAI PELA CULATRA: uma das noções mais difundidas na gestão de pessoas - sejam empregados ou filhos - é a de que recompensas funcionam como extraordinárias peças de motivação. Na maioria das vezes isso realmente é verdade, mas em algumas situações fracassa espetacularmente.
Cinquenta crianças entre três e quatro anos e que tinham algum interesse em desenhar foram reunidas por Mark R. Lepper e David Green, da Universidade de Stanford para um curioso estudo.
Divididas em três grupos, elas ficavam isoladas numa sala durante seis minutos para fazer um desenho qualquer.
Depois de terminar a tarefa elas poderiam: 1) receber uma recompensa por desenhar, sendo que elas sabiam disso; 2) receber a mesma recompensa do grupo anterior, mas de surpresa; ou 3) não receber recompensa alguma.
Por um vidro espelhado os pesquisadores verificavam quanto tempo as crianças efetivamente desenhavam, de acordo com os grupos em que estavam. O surpreendente resultado pode ser visto no gráfico abaixo, à direita, onde se vê quantos minutos em média cada grupo permaneceu desenhando.
O que se percebe a partir do resultado é que a recompensa parece diminuir o interesse inato pelo desenho. Além disso, os especialistas avaliaram os desenhos das crianças do Grupo 1 como menos bonitos do que os outros (a diferença entre os Grupos 2 e 3 não é estatisticamente relevante).
Para os pesquisadores a explicação reside na diferença entre as motivações intrínsecas (quando fazemos algo porque queremos ou gostamos) e extrínsecas (quando algum fator exteno nos motiva). As crianças que participaram do estudo foram escolhidas exatamente porque encontravam no desenho algum tipo de motivação intrínseca.
Entretanto, no momento em que algo foi-lhes oferecido para realizar algo que faziam com prazer, as crianças pareciam ter um excesso de justificativas para desenhar e, paradoxalmente, perdiam o interesse.
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Você tem filhos? Que tal lhe parecem os estudos acima? Como você pode contribuir com as outras leitoras que também os tem ou, ainda, a esse autor que ainda não encomendou os seus? Ou então, quer me ajudar com temas para um próximo post sobre esse assunto? Aguardo os comentários...
UPDATE: Não me segurei e acabei escrevendo uma segunda parte deste texto. Veja em Mais dicas de um pai que nunca foi.
