Nos textos mais recentes exploramos alguns comportamentos humanos relacionados a escolhas feitas em ambiente pouco familiares, onde os indivíduos encontravam-se em situações de estresse. Especificamente os artigos sobre Zimbardo e Milgram mostraram como as pessoas acabam tomando decisões que prejudicam aqueles à sua volta, num momento em que havia a possibilidade de escolher entre se fazer o bem ou o mal a alguém. Hoje veremos como o indivíduo faz tal escolha numa situação em que ele próprio sofrerá as conseqüências mais imediatas: o uso de drogas.
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Scarface doidão querendo fazer amigos
Na década de 1970 o uso de drogas pesadas atingia níveis endêmicos com a disseminação da cocaína pelos EUA, além dos veteranos da Guerra do Vietnam que voltavam para casa viciados em heroína e os revolucionários movimentos da contra-cultura, que popularizaram o LSD.
Depois de o vício em drogas ter sido associado à imoralidade e à fraqueza de caráter, a corrente de pensamento da segunda metade do século XX atribuía o uso e o abuso das drogas a questões essencialmente farmacológicas. Colocavam a dependência química quase como um inevitável fim para aqueles com alguma predisposição inata sendo, portanto, uma questão médica.
Recentes experimentos com ratos e macacos relatavam dramáticos desfechos de estudos nos quais, em condições experimentais, as cobaias chegavam a preferir droga em vez de comida, muitas vezes morrendo de fome. Mas o psicólogo americano Bruce Alexander encontrou algumas inconsistências nesses relatos que mostravam o vício em drogas como um destino quase irrevogável e praticamente dissociado do livre arbítrio.
Para ele, as condições em que os próprios estudos eram realizados representavam um verdadeiro pesadelo para as cobaias envolvidas. Era de se esperar, continua, que qualquer ser vivo naquelas situações preferisse viver entorpecido do que sobreviver de forma tão deplorável. E ele estava disposto a provar sua hipótese.
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Depois de se formar em Psicologia na Universidade de Miami, Alexander conheceu Harry Harlow e seus famosos estudos sobre o amor materno envolvendo macacos. Fascinado com essas teorias e buscando resposta para seus próprios dilemas amorosos, Alexander transferiu-se para a Universidade de Madison, para estudar com o próprio Harlow.
O que presenciou, entretanto, haveria de mudar radicalmente seu foco de interesse: Harlow era um incorrigível alcoólatra. Alexander passou a se perguntar o que levava uma pessoa a desconectar-se completamente do mundo. Em vez de pesquisar sobre o amor, acabou atraído pelo vício - academicamente falando.
Com o colapso do seu casamento, Alexander mudou-se para o Canadá, onde trabalhou numa clínica de tratamento de viciados. Um paciente em especial chamava sua atenção: um rapaz que trabalhava vestido de Papai Noel injetava-se heroína e passava seis horas por dia sorrindo para crianças num shopping center em Vancouver. Tal comportamento sugeriu-lhe, pela primeira vez, que as pessoas não usavam a droga por uma necessidade essencialmente química, mas para suportar uma situação social potencialmente difícil.
Com as recentes descobertas sobre o funcionamento do cérebro nas décadas de 1960 e 1970 e a localização das suas zonas de prazer, Alexander perguntava-se, então: se o acesso às maravilhosas drogas que estimulavam essas áreas era tão fácil e o resultado tão satisfatório, por que apenas uma fração dos usuários tornava-se dependentes?
Para Alexander, os modelos animais estudados na época ignoravam a ligação entre os estímulos farmacológicos e as condições ambientais. Ninguém considerava que o ratinho cruzava um piso eletrificado para sugar uma solução rica em ópio, porque talvez não tivesse mais nada para fazer. Ou que um macaco que trocava sua comida por cocaína provavelmente preferisse morrer a estar ali, pois o isolamento causa aflição extrema aos macacos, assim como a várias outras espécies - o homem incluído.
Ele queria provar que, talvez mais do que desequilíbrios químicos, a necessidade incontrolável por determinadas substâncias poderia estar relacionada, por exemplo, ao trabalho, a um lar opressor, a uma infância sem afeto, à sorte ou até mesmo ao mau tempo - ou seja, fatores situacionais em vez de biológicos.
Observando os ratinhos viciados de seus colegas, Alexander admite que ele próprio sucumbiria ao torpor das drogas, como uma fuga para aquele ambiente precário - isso sem falar dos catéteres introduzidos em obscuros orifícios da sua anatomia, como acontecia nas caixas de Skinner utilizadas na época. Qual seria o comportamento dos roedores, perguntava-se, caso vivessem num outro tipo de ambiente, ou fossem experimentados sob diferentes circunstâncias?
Para Alexander, a resposta talvez estivesse aí. Junto com seus colaboradores Robert Coambs e Patricia Hadaway, ele começou a construir o verdadeiro Paraíso dos ratinhos de laboratório, num experimento que mais tarde tornar-se-ia conhecido como Rat Park.
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Num ambiente controlado de 8,8 m2 (pode não parecer muito, mas era 200 vezes maior do que a gaiola comum onde a maioria dos experimentos era feita e, considerando o tamanho do ratinho, seria algo como uma pessoa dentro de um estádio de futebol*), aquecido a uma temperatura agradável, eles espalharam serragem de cedro pelo chão, bolinhas coloridas, rodas para exercício e dispensadores apropriados para alimentação.
Havia espaço suficiente para que os animaizinhos pudessem conviver confortavelmente, brincar, namorar e até eventualmente dar à luz e amamentar. Nas paredes pintadas de verde, eles desenharam montanhas e árvores simulando uma realidade ainda mais ampla do que uma gaiola de laboratório comum. Dezesseis felizes ratinhos passaram a desfrutar desse paraíso - que passarei a chamar singelamente de Ratolândia.
Outros dezesseis roedores não tão sortudos serviram como controles e foram confinados a um ambiente bem mais modesto - que batizei de Ratoeira -, semelhante às gaiolas utilizadas até então, onde viviam num triste isolamento.
Para ambos os grupos eram oferecidas duas opções de líquidos: uma torneira despejava água pura, enquanto que a outra oferecia uma mistura de água, açúcar e morfina.
Como era de se esperar, os ratinhos confinados logo preferiram a segunda opção, enquanto os felizes habitantes da Ratolândia eventualmente davam uma bicadinha (ou uma roidinha) na solução com morfina - com maior prevalência das fêmeas, diga-se. Os pesquisadores verificaram, assim, que o consumo de drogas era dezesseis vezes maior na Ratoeira, a colônia dos ratinhos sofredores - uma proporção pra lá de estatisticamente significativa.
Mais adiante no estudo, Alexander e sua equipe misturaram naloxona - uma substância que anula os efeitos da morfina - à solução com o opiáceo. Agora os habitantes da Ratolândia também bebiam dessa nova mistura, mas apenas em busca do seu açucarado paladar. Este toque final ao estudo mostrou como os ratinhos que viviam num ambiente equilibrado e socialmente ajustado evitavam qualquer substância que pudesse interferir em suas estáveis relações sociais. Eles também gostavam da água doce, desde que ela não os deixasse pirados.
"Me dá um teco ou me tira daqui!"
Alexander considera válida a comparação do seu estudo com os ambientes humanos pois, assim como nós, os ratos são animais extremamente agregadores, ativos e curiosos. E o efeito analgésico e tranqüilizante da morfina interferia negativamente em suas capacidades de se relacionar com o grupo, bem como em outras gratificantes oportunidades que lhes eram oferecidas, tornando o seu uso indesejado.
Numa importante variação do estudo ambos os grupos, tanto os da Ratolândia quanto os da Ratoeira, recebiam apenas água batizada com morfina e açúcar. Depois de algum tempo nesse regime, os dois grupos eram compostos de ratos viciados e dependentes, certo?
Não necessariamente. Após aproximadamente dois meses, os pesquisadores ofereceram novamente a opção entre água com morfina (e açúcar) e água pura. A primeira opção continuou a ser a preferida da Ratoeira, enquanto que na Ratolândia seus habitantes pouco a pouco foram deixando de consumir a droga, mesmo depois de um longo período de uso contínuo.
Mesmo quando deixavam a droga por vontade própria, os ratos mostravam ligeiros sintomas de abstinência, mas nada severo como suor em profusão ou convulsões, por exemplo. Para Alexander, a síndrome de abstinência configura outro exagero em torno do também superestimado mito do vício.
Alexander conclui que boa parte do vício faz parte do chamado livre arbítrio. Quando uma pessoa - ou um rato - pega e usa o cachimbo, mas não o larga depois, isso está muito mais ligado às situações que vive do que às propriedades farmacológicas da droga em si. Talvez as circunstâncias em que a pessoa viva não lhe ofereçam uma redenção tão imediata e fácil quanto as drogas que ele tem à disposição.
O vício representa, então, uma estratégia, um estilo de vida para lidar com determinada situação e, como toda estratégia, está sujeita à influência da educação, da diversão e das oportunidades - assim como qualquer escolha.
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Considerando o impacto de suas descobertas - ou talvez exatamente por causa delas - o artigo original de Alexander (The effects of housing and gender on morphine self-administration in rats) foi rejeitado pelas revistas científicas mais importantes, como a Science e a Nature, tendo sido publicado na respeitada, porém nem tão glamorosa, Pharmachology, Biochemistry and Behavior, em 1978.
Ainda assim, as idéias de Alexander trouxeram - e continuam trazendo - uma série de dúvidas em relação à forma como se aborda o problema do vício em drogas. Questionam profundamente as abordagens sociais e, especialmente, as médicas para o problema das drogas.
Nem os mais modernos avanços em tecnologia de diagnósticos ou as recentes descobertas em bioquímica ou genética foram capazes de desvendar completamente os mecanismos por trás do vício em drogas.
Até pelo fato de haver enormes diferenças individuais nas respostas aos seus efeitos no organismo, não se chega a uma proporção ideal sobre os fatores que mais exercem influência nesse pernicioso hábito; se farmacológicos (a pessoa pode ter algum déficit na produção dos neurotransmissores) ou situacionais (o indivíduo pode estar vivendo um momento particularmente difícil).
O uso de drogas, qualquer que seja, guarda estreita relação com o estado de espírito do indivíduo, espelhando a situação particular que vive. Cigarros, cocaína ou chocolate representam um apelo muito mais forte para a pessoa que tem algum tipo de problema do que para quem está feliz e serelepe. Talvez até por isso não exista esta proporção ideal, uma vez que as características próprias de cada indivíduo sugerem abordagens particulares.
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Num artigo recente na The Walrus Magazine Robert Hercz relembra os estudos de Alexander e sua equipe, mencionando o fracasso no combate às drogas no Canadá, em virtude do seu crescente consumo.
Só que tão interessante quanto o artigo é notar que o primeiro comentário nele postado foi do próprio Dr. Robert Coambs, um dos co-autores do estudo original, junto com Bruce Alexander. Para ele, as caixas de Skinner dissociam os ambientes experimentais do mundo real, onde uma torta de chocolate só é atraente se você realmente a quiser, pois a recompensa e o prazer estão inerentemente ligados à situação. Por isso, acrescenta, milhões de pessoas acotovelam-se todos os anos nas filas das montanhas-russas para sentirem medo e pânico - sensações não muito agradáveis em condições normais.
Coambs lembra, ainda, que a morfina estimula áreas do cérebro (especialmente o nucleus accumbens) independentemente do estado de humor em que a pessoa se encontre. Existem outras partes do cérebro, no entanto, que canalizam, modificam ou até mesmo bloqueiam tais estímulos, de acordo com outras atividades cerebrais em curso.
Os centros de recompensa do cérebro são regulados por uma miríade de circunstâncias que a ciência ainda não é capaz de controlar em laboratório. Quando a experiência de Alexander e seus colegas conseguiu controlar uma delas - o ambiente social - todo o modelo corrente de morfina-e-os-centros-de-prazer-do-cérebro parece ter ruído.
Os estudos de Alexander soam, também, como mais um brado em favor da legalização das drogas. Ao menos para os ratos, a abundante oferta da droga não resultou, necessariamente, em vício, embora todos os ratos a tenham experimentado e até desenvolvido certa dependência em determinado momento. Talvez não haja razão para supor que a descriminalização das drogas reduza a atração pelo proibido, mas certamente inibe algumas das conseqüências secundárias, como o tráfico e a violência que ele gera.
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Mesmo que as pesquisas de Alexander não tenham provado que o vício em drogas é uma questão puramente comportamental - porque talvez não seja o caso - elas mostraram falhas indiscutíveis no modelo estritamente farmacológico.
Transformar o problema numa questão essencialmente química e tratá-lo dessa forma parece apenas camuflá-lo por um tempo. Até pode dar resultado, mas em seguida devolve-se o ex-viciado ao mesmo ambiente adverso que o colocou naquela situação. Nossa sociedade combate várias de suas doenças - sejam médicas ou sociais - do mesmo modo.
O vício seria, por assim dizer, uma resposta individual, consciente e premeditada a um problema coletivo. E parecemos sempre buscar minimizar as conseqüências dos seus problemas do que as causas propriamente ditas. Medicamos os viciados antes de os tirarmos das suas Ratoeiras. Obrigamos as empresas a contratar deficientes físicos em vez de torná-los competitivos no mercado de trabalho. Devolvemos ex-presidiários à sociedade e ficamos torcendo para que não voltem a cometer crimes.
A essa altura, não podemos deixar de lembrar a emblemática frase de Phil Zimbardo dizendo que "se você quer mudar alguém, tem que mudar a situação em que a pessoa se encontra".
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* Isso foi um chute, mas se alguém quiser fazer o cálculo exato da proporção eu agradeço...
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Leia a Introdução sobre esta série a respeito de famosos Experimentos em Psicologia, além de uma relação dos outros textos já disponíveis.
