Participei esses dias de uma conversa onde uma esposa aflita comentou sobre algumas preocupações com relação a seu enteado. O menino, recém-entrado na puberdade, estava namorando a filha de uma amiga dela. Ambos jovens, experimentavam pela primeira vez as descobertas da adolescência. Não preciso ir muito além para que a atenta leitora perceba onde residem, exatamente, os temores familiares: sexo.
Como sempre, o assunto girou em torno de como os jovens de hoje estão transando cada vez mais cedo e com menos cuidado. Por mais que os pais orientem, casos de gravidez entre adolescentes estão mais frequentes, embora se fale mais abertamente sobre sexo seguro, camisinhas e outras formas de prevenir essa e outras consequências indesejadas.
Lembrei-me, então, de uma passagem do Predictably Irrational*, do Dan Ariely, onde o autor sugere que o problema vem sendo abordado de forma equivocada. Sua hipótese é que as pessoas não pensam claramente quando estão excitadas de alguma forma. Para embasar esta teoria, Ariely executou um engenhoso experimento, realizado entre alunos de uma universidade americana:
Ele enviou notebooks com questionários sobre comportamento sexual aos voluntários, pedindo que fossem respondidos da forma mais honesta possível. As perguntas pretendiam verificar em que situações as pessoas buscariam prazer sexual. Sem que eu precise fazer algum julgamento de valor, as opções incluíam transar com a namorada, sexo oral, anal, relações com pessoas do mesmo sexo, idosos, gordos, anões, animais, vegetais e algumas outras que não ouso citar.
A tabulação das respostas não mostrou nada muito de anormal, refletindo um padrão mais ou menos esperado. (Não me pergunte que padrão é esse...)
Numa segunda etapa, realizada umas semanas depois, o experimento ganhou ares um pouco mais picantes. O programa que continha os questionários havia sofrido um upgrade e exibia, agora, imagens de forte apelo sexual. Mulher pelada mesmo... De acordo com as novas instruções, o voluntário deveria se masturbar enquanto respondia às perguntas.
Ficou chocada? Pois é, espere até os resultados...
Antes de prosseguir, adianto que o protocolo do estudo foi autorizado previamente pela universidade - uma das mais tradicionais dos EUA - e havia um termo de consentimento assinado pelos participantes, revelando a natureza do experimento.
Os resultados só não foram mais surpreendentes porque Ariely já esperava uma variação nos números. Só não esperava que fossem tão grandes. Alguns dos itens para os quais a leitora torceu o nariz alguns parágrafos atrás tiveram seus índices triplicados e até quadruplicados. Jovens que antes pregavam relações responsáveis e comportamentos quase castos confessaram pensamentos um tanto quanto libidinosos sob o efeito da testosterona. Admitiam atacar seus colegas no chuveiro, avançar sobre a tiazinha da cantina, namorar pepinos e até dar uma volta com a cabritinha da fazenda.
O fato de que os jovens estariam dispostos a comprar uma passagem só de ida para Gomorra, com escala em Sodoma quando suficientemente excitados mostra o quão frágeis são as lições de educação sexual que damos aos nossos filhos. Sem entrar no mérito de o que representa ou não algum desvio de ordem psicológica, a questão é que muitos desses comportamentos envolvem os riscos que tiram o sono dos pais. E seus filhos mostraram estar dispostos a assumi-los.
O conselho de Ariely nessas situações é que os pais (e as escolas) precisam voltar suas preocupações mais para o lado psicológico do que para o biológico. Quando admitimos que nossa racionalidade é afetada pela excitação de uma situação (seja de caráter sexual ou não), precisamos nos preparar de outra forma para enfrentá-las.
Quando o jovem chega ao ponto de onde não dá mais para voltar (sem trocadilho) - ou seja, quando ele inapelavelmente vai fazer sexo - todos os sermões sobre usar preservativo para não engravidar ou contrair/transmitir uma Doença Sexualmente Transmissível vão por água abaixo. Nessa hora, o desejo e a vontade falam mais alto.
Quem nunca viveu isso que atire a primeira pedra. Então por que você acha que seu filho ou filha não farão igual?
A pergunta que se deve fazer é: nessa situação que você acabou de imaginar, se você tivesse uma camisinha à mão, você a usaria? Pois é aí, segundo Ariely, que se devem concentrar os diálogos entre pais e filhos. Porque não adianta toda aquela aula sobre riscos se na hora certa a pessoa não tiver com o que se proteger. E o estudo mostrou que satisfazer os desejos vem antes de se proteger.
____________________
Disponível no Brasil com o título de "Previsivelmente Irracional" (Campus, 2008).
