Nos dois textos anteriores (primeiro e segundo) sobre Outliers: The Story of Success
(o novo livro de Malcolm Gladwell, disponível no Brasil pela Editora Sextante com o título "Fora-de-série: outliers, descubra porque algumas pessoas têm sucesso e outras não"), ficou claro que é preciso ter algum talento inicial que diferencie o fora-de-série de seus semelhantes, além de uma enorme dose de trabalho árduo. "Maravilha! Então quer dizer que seu eu for um pouquinho esperto e ralar bastante serei o próximo Warren Buffett ou von Neumann, conforme a natureza da minha ambição?"
Não necessariamente, gafanhoto. Há vários doutores subempregados, gênios desempregados e uma infinidade de pessoas extremamente capazes, mas que não desenvolvem todo o seu potencial.
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Nenhuma metodologia existente até hoje conseguiu medir, por exemplo, o QI de Christopher Langan, simplesmente porque ele vai muito além dos atuais padrões. Considerando o QI do Einstein como 150, Langan teria algo em torno de 185 (outras fontes o situarão entre 195 e 210). Como então Einstein é uma das maiores personalidades do século XX e você nunca ouviu falar de Chris Langan? Provavelmente isso tem a ver com o fato de Langan ter trabalhado como pedreiro e porteiro a maior parte da sua vida, em vez de escrito a Teoria da Relatividade.
Segundo teorias recentes, um altíssimo QI não é muito diferente de um QI apenas alto, assim como um jogador de basquete altíssimo não será melhor do que Michael Jordan apenas por ter maior estatura. A partir de um nível mínimo*, o que passa a contar são outras habilidades. Mas que habilidades são essas e de onde elas vêm?
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Logo após a Primeira Guerra Mundial, o psicólogo americano Lewis Terman iniciou um dos maiores estudos sobre a inteligência humana de que se tem notícia. No início da década de 1920 ele garimpou as escolas da Califórnia avaliando mais de 250.000 crianças, buscando aquelas que se destacavam nos testes de inteligência. As melhores 1.470 (um site da Universidade da Carolina do Norte fala em 1.528) foram selecionadas, formando um exclusivíssimo grupo onde a média de QI era superior a 135 e chegava, em alguns casos, a 200. O grupo foi logo apelidado de Termites.
A partir de então, Terman passou a acompanhar de perto os detalhes das vidas de cada um de seus prodígios, desde suas realizações acadêmicas até relacionamentos e casamentos, passando por doenças, sanidade mental até empregos e promoções. Tudo era registrado em grossos volumes intitulados Estudo Genético dos Gênios.
Pois foi exatamente esse rigor metodológico que permimtiu que Terman percebesse o erro que havia cometido, ao atribuir o sucesso das pessoas exclusivamente aos seus Quocientes de Inteligência. Ao atingir a vida adulta, alguns dos Termites tinham empregos públicos, dois eram juízes de cortes superiores e um era juiz municipal. Poucos eram figuras de renome nacional. Recebiam bons salários, mas não tãããão bons assim. Alguns tinham subempregos. Outros viviam do seguro-desemprego.
Nenhum deles ganhou um prêmio Nobel, mas dois dos que foram excluídos do grupo nos testes preliminares por não terem QIs tão altos ganharam: William Shockley e Luis Alvarez. De maneira melancólica, mas bastante auto-crítica, Termite concluiu que muita inteligência e grandes realizações não andam, necessariamente, de mãos dadas†. O que não fechava na equação de Terman? O que faltava para provar a superioridade daquele 0,6% de crianças super-dotadas?
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A diferença está, para Gladwell, noutras habilidades tão essenciais ao sucesso de uma pessoa quanto seu QI: sua inteligência prática. Para o psicólogo Robert Sternberg, que cunhou o termo‡, isso nada mais é do que conseguir aproveitar o vastíssimo arsenal teórico que se tem, em atividades diárias mais básicas, sejam elas de trabalho, esporte, lazer ou ócio. Do contrário, você tem um garfo numa terra onde se toma sopa. Como Chris Langan.
O QI avalia, até certo ponto, habilidades inatas (estima-se que a genética seja determinante de 50% dele). Mas perspicácia social (minha terrível tradução para social savvy ) é conhecimento. Trata-se de um conjunto de habilidades que devem ser aprendidas. Devem vir de algum lugar. E esse lugar, onde absorvemos esses tipos de atitudes e competências é o que costumamos chamar de lar. É a nossa herança comportamental - e o que faz toda a diferença ao avaliar as chances de conseguirmos desenvolver todo o nosso potencial.
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A professora de sociologia da Universidade de Maryland Annette Lareau lançou mais luz ainda sobre a origem dessas habilidades. Interagindo direta e constantemente com várias famílias, Lareau concluiu que crianças com mais perspicácia social vêm de lares com melhores condições sociais. Segundo ela, pais mais ricos tendem a criar seus filhos para serem mais independentes, críticos e (respeitosamente) questionadores. Já as famílias humildes parecem imbuir seus filhos de um espírito mais conformado e submisso.
Isso se encaixa na teoria de Gladwell pois, segundo ele, nascer numa família com boas condições (não necessariamente rica) e ser criado num ambiente intelectual e socialmente estimulante é condição sine qua non para ter uma personalidade mais altiva, assertiva, indomável - características inerentes aos fora-de-série.
Enquanto os pais de Bill Gates mostraram-lhe os recursos para buscar o que queria, Chris Langan cresceu num lar com três irmãos de quatro pais diferentes, sendo que o único que permaneceu em casa era o alcoólatra que espancava a todos (ele tem, hoje, uma compleição física robusta porque praticou halterofilismo quando adolescente, exatamente para poder defender-se) . Eles e seus irmãos ficavam nus dentro de casa enquanto a única roupa de cada um secava no varal.
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* Essa foi uma teoria desenvolvida na década de 1980 por Arthur Jensen em seu livro Bias in Mental Testing.
† O que deve ser comemorado, pois você consegue imaginar o que seria viver num mundo onde prevêm o seu futuro através de um teste de QI quando você é criança? Se não consegue, assista Gattaca!
‡ Sternberg introduziu, também, o conceito da Teoria da Tripla Inteligência, onde nossas atividades mentais seriam produzidas pelo conjunto de uma inteligência Analítica (a mais tradicional e que considera as habilidades de raciocínio abstrato, matemático e lógico), uma Criativa (o pensamento divergente e intuitivo, que nos ajuda a lidar com situações novas), e a já citada Prática (ou contextual, que possibilita nos adaptarmos a novos ambientes e lidar com as nossas emoções e as dos outros).

Poisé, as pessoas mais interessantes que conheço, não por acaso, têm pais fenomenais.
E esse papo todo me fez lembrar uma constatação de um prof de filosofia da época da fac, que contou o caso de uma criança-geninho-fenomenal que quando cresceu deixou de se destacar, passando a ser apenas mais um na multidão. O rapaz não deve ter se submetido à temperatura e pressão ideais, nas circunstâncias ideais. Complexo isso. O livro do Gladwell me chama rsrs
Posted by: suzana | 05/12/2008 at 11:52