Vou aproveitar que o DVD do Batman - o Caveleiro das Trevas acaba de ser lançado para falar do filme de estréia do diretor Christopher Nolan.
Começo esse post com uma pequena correção no título original: Memento, em inglês seria algo como souvenir, algum objeto guardado para lembrar de algo. Faz mais sentido até que o título, já que em alguns momentos da trama o protagonista diz que ele não tem amnésia.
O que Leonard "Lenny" (um perturbado Guy Pearce, astro de Los Angeles: cidade proibida e Mortos de fome) tem é uma incapacidade de registrar novas lembranças. Ele é atacado durante um assalto à sua casa, ficando com seqüelas no cérebro, que fazem com que os acontecimentos do dia-a-dia se apaguem de sua cabeça em minutos. Mesmo assim ele decide ir atrás dos seus agressores que também teriam matado sua esposa.
Não bastasse sua memória de peixinho dourado, Lenny ainda tem que lidar com uma dupla de escroques que tenta se aproveitar dele e de sua condição especial. Natalie, vivida pela charmosíssima Carrie Ann-Moss (a Trinity, de Matrix), manipula-o para executar seu plano de vingança particular. Enquanto isso, Teddy Gammell, o versátil Joe Pantoliano (também de Matrix, e Ligadas pelo desejo) vai plantando pistas falsas para que Lenny faça seu trabalho sujo.
Para tentar pôr um pouco de ordem em sua vida, Lenny tatua anotações no seu corpo - especialmente as pistas sobre John G., o suposto assassino de sua mulher (a feiosa Jorja Fox, mais conhecida como a Sara Sidle, de CSI). Uma polaróide sempre a tiracolo, com as devidas legendas anotadas à mão completam o bizarro quadro de sua memória, para a qual sua mente não funciona mais.
Há um curioso diálogo onde Lenny explica a Teddy porque ele acredita mais em seus métodos do que na memória de alguém: "A memória não é confiável. Sério! A memória não é perfeita. Nem é tão boa assim. Pergunte à polícia. Testemunhas oculares não são confiáveis. Policiais não prendem assassinos lembrando-se de coisas. Eles colhem fatos, tomam notas e tiram conclusões. Fatos, não memórias. É assim que se investiga. Sei disso porque é o que eu fazia. A memória pode mudar o formato de um quarto, a cor de um carro. Memórias podem ser distorcidas. Elas são apenas interpretações, não são registros. E são irrelevantes se você tem os fatos."
Tudo indica que a tarefa de Lenny não será das mais fáceis, certo? Pois a sua também não será. Parece que Christopher Nolan quis que você sentisse na sua própria pele as dificuldades de seu protagonista e resolveu picotar o filme todo e colar de maneira pouco ortodoxa. É o seguinte: o filme começa com os cinco minutos finais. Depois ele volta dez minutos e você assiste os cinco que faltavam até chegar na primeira parte que viu. Depois volta mais dez minutos e assim vai, até o final. Ou melhor, até o início. Você que vá montando o quebra-cabeças de Lenny dentro do quebra-cabeças que é a seqüência do filme.
Lembro que vi esse filme no cinema, numa pré-estréia. A cena de abertura, toda rodada de trás para frente já dá uma idéia de que o que vem a seguir foge do convencional. As pessoas saíam da sala completamente desnorteadas, sem conseguir juntar as peças direito. Acho que até hoje muita gente não entendeu a estória e por isso diz que não gostou do filme.
Minha sugestão para uma derradeira tentativa é alugar o DVD. Há uma opção para assistí-lo na ordem correta. Mas acredite: será um filme completamente diferente! O incrível roteiro escrito pelos irmãos Christopher e Jonathan Nolan permite que o filme possa começar por qualquer um dos seus extremos: seja o início ou o fim.
Desde Amnésia sou fã desse diretor inglês de apenas 38 anos. Seu segundo filme comercial foi Insônia, com Al Pacino, Robin Williams e (ai, ai, ai...) Hillary Swank. Apesar dos quatro Oscars do elenco, não foi um grande sucesso, por uma trama talvez morna, ou por uma exagerada expectativa em virtude do primeiro sucesso. Algo semelhante ao que aconteceu a M. Night Shyamalan depois de O sexto sentido.
Tudo indicava que Nolan faria carreira explorando temas neurológicos/psiquiátricos. Quando todos nós esperávamos algo como Epilepsia ou Bipolaridade, o diretor fez o melhor filme do Batman de todos os tempos: Batman begins (que depois virou o segundo melhor). Uma ótima parceria com Christian Bale que ainda renderia O grande truque, mais um de seus roteiros sensacionais co-escrito com seu irmão, com um surpreendente final. Claro, tudo isso antes de Batman, o cavaleiro das trevas.

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