A mistura de alguns assuntos polêmicos com que tenho lidado recentemente tem-me feito questionar certos comportamentos que adotamos coletivamente. A história do voto obrigatório e uma resposta a um comentário que acabei de publicar trouxeram-me novamente à mente o tema da mobilização popular. Ou pior, da falta dela.
Meu pièce de résistance com relação ao voto obrigatório é o fato de que o povo não é suficientemente engajado para espontaneamente levantar a bunda do sofá – ou da areia – para ir votar, o que deixaria as eleições totalmente entregues a mercenários em promoção e acéfalos em geral. Sob o chicote, o povo até vota. Mal, mas vota.
A pouca importância que o povo dá a questões tão sensíveis, em comparação com situações mais banais, triviais, fúteis até, faz-me pensar que tipo de governo nós merecemos. O argumento que usei no referido comentário causou-me certo mal-estar: acho que se o voto não fosse obrigatório o Gabeira não estaria no segundo turno.
E mais: acho que o Crivella se elegeria no primeiro turno. Não, eu não perdi o meu juízo, mas será que tanta gente assim iria votar por iniciativa própria? Será que os liberais eleitores prafrentex do Gabeira fariam isso? É uma pergunta incômoda, mas por favor não atirem no mensageiro.
Tudo isso fez com que eu ficasse ainda mais sensibilizado com uma notícia que li agora há pouco no jornal: “PM acusado de matar estudante na porta da B... é absolvido”. Por SETE votos a ZERO um assassino ficará livre. O promotor, Marcelo Monteiro, responsável pela acusação pediu a absolvição do réu.
Que coisa mais disparatada é essa?? Imagine se o advogado de defesa pedisse para seu cliente ser condenado? Não entendo nada de direito penal, mas isso me parece um total descabimento. E fora a questão do procedimento, como uma pessoa pode ser absolvida assim?
A parte que mais me choca – e espero que também te incomode muito! – é que em menos de um mês isso estará esquecido. Por todos nós, menos pela família desse garoto. Quanto tempo demoramos para esquecer o menino João Hélio que foi barbaramente arrastado por um carro por quilômetros, também no Rio de Janeiro, há pouco mais de um ano? Ou o rapaz morto a cadeiradas na frente da namorada, pelo segurança de um bar na Gávea, uma década atrás? Quem? Onde?
Há quanto tempo o carioca aceita passivamente a massacrante violência que lhe é imposta todo dia, sem tomar uma atitude séria? Essas passeatas pela paz que volta e meia fazem na praia de Ipanema soam tão inúteis quanto patéticas. São desfiles hipócritas de gente que tapeia sua própria consciência, tão facilmente enganada. Um breve cortejo festivo dos últimos Lennys, Ellus e Osklens na passarela ensolarada mais distante possível da gentalha, antes do chopp de fim de tarde. As marchas pela maconha são mais cheias. A Parada Gay é lotada. A chegada de um time de futebol campeão pára a cidade, mesmo que seja de madrugada. Mas um jovem é morto, um menino é esquartejado e damos de ombros.
Uma atitude séria para mim é a cidade inteira parar para acompanhar esse julgamento. Duzentas mil pessoas na porta do tribunal. É uma torcida não assistir a jogos de atropeladores. É fechar sua conta no banco que patrocinou o mensalão. É boicotar os artistas que fazem anúncios de agiotas na TV. É não ir na boate onde matam pessoas na porta. É não ser amigo do corrupto. É cancelar o Carnaval para protestar. Você está disposto? Até onde? Ou isso representa muito sacrifício para você?
EM TEMPO: sou carioca e moro em São Paulo há três anos. Alguns amigos e conhecidos meus acusam-me de falar mal do Rio depois que saí de lá. Eu aceito as críticas. Mas me mostrem que estou errado.
