03/07/2009

Experimentos em Psicologia - Elizabeth Loftus e o homem que não estava lá

Sempre que ouvimos falar em problemas de memória, relacionamos a episódios onde não conseguimos nos lembrar de algo que aconteceu. Nunca ao fato de nos lembrarmos de algo que não aconteceu. Mas será possível termos recordações de coisas que não vimos, reviver emoções que não experimentamos?

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Trial_by_jury_1994_685x385 Nas décadas de 1970 e 1980 Elizabeth Loftus, uma professora de Psicologia e Direito da Universidade da Califórnia, trabalhava como assistente de advogados de defesa em casos que envolviam testemunhas oculares. Sua tarefa era tentar convencer os jurados de que a memória não funcionava como infalíveis câmeras filmadoras, que tudo registram com absoluta precisão.

Até que em 1990 ela foi contratada por Dough Horngrad, um advogado encarregado de defender um pai cuja filha estava acusando-o de terríveis crimes*. Segundo os relatos da moça, seu pai, George Franklin, um senhor de 63 anos, teria estuprado e assassinado sua melhor amiga Susie Nanson, em 1969, quando ambas tinham oito anos de idade. A parte perturbadora da história - digo, além do estupro e do homicídio - era o fato de Eileen Franklin, a filha, ter se lembrado dos episódios mais de vinte anos depois de eles presumidamente terem ocorrido.

Loftus, com uma renomada carreira em psicologia e décadas de experiência forense, simplesmente não podia acreditar que alguém guardasse um trauma dessa magnitude adormecido em sua memória por tanto tempo e, de uma hora para outra, se lembrasse de tudo com seus mínimos detalhes. Ela não negava que esse tipo de crime acontecia, pois já tinha presenciado barbaridades semelhantes em seus anos de tribunal. Mas ela também sabia o quanto as pessoas eram manipuláveis e fantasiavam coisas. Também não havia na literatura científica qualquer prova de que memórias reprimidas fossem confiáveis.

Sua tese era que um homem estava prestes a ser condenado com base num depoimento com alta carga emocional, a respeito de fatos ocorridos décadas antes. Para ela, a moça poderia ter criado suas histórias a partir de sugestões de alguma pessoa próxima, como seu terapeuta por exemplo. Durante o julgamento, o depoimento de Loftus defendeu a teoria de que a memória é altamente influenciável, podendo ser alterada, mesmo de forma inconsciente e sem que isso represente, necessariamente, má-fé ou dolo da pessoa.

Ela descreveu alguns de seus experimentos onde os voluntários transformavam sinais de trânsito amarelos em vermelhos, colocavam prédios onde não havia nada, e lembravam-se de barbas negras em rostos lisos - como no diálogo abaixo, entre Leonard com Ted, do filme Amnésia (aliás, repare a qualidade da imagem do YouTube):


"A memória não é confiável. Sério, a memória não é perfeita. Nem é boa. Pergunte à polícia. Depoimento de testemunha ocular não é confiável. Tiras não apanham assassinos lembrando coisas. Coletam fatos, fazem anotações e tiram conclusões. Fatos, não lembranças. É como se investiga. Eu sei, eu fazia isso. A memória muda o formato de um quarto, a cor de um carro. Lembranças podem ser distorcidas. São só uma interpretação, não são um registro. E são irrelevantes se você tem os fatos."

Para Loftus, toda a descrição do crime feita por Eileen baseava-se nos relatos da imprensa da época. Desde a pedra que seu pai teria usado para esmagar o crânio da sua amiga, até as manchas de sangue jamais encontradas em suas roupas.

Elizabeth Loftus Apesar da brilhante defesa, Franklin foi o primeiro americano condenado por abuso sexual e homicídio por um testemunho baseado na recuperação de memórias reprimidas.

A partir daí, alguns estados americanos alteraram o prazo de prescrição de crimes dessa natureza de "três anos do fato ocorrido" para "três anos da lembrança do fato ocorrido" - o que provocou uma avalanche de novos casos de pais sendo acusados por seus filhos de maus-tratos na infância.

O caso abalou profundamente Elizabeth Loftus que, dali em diante, passou a dedicar-se a provar que as memórias podem não só ser amplamente distorcidas, mas também inteiramente criadas. Ela buscava desesperadamente de uma prova definitiva e irrefutável da tese que defendia, sobre a fraca natureza da memória enquanto evidência ou até mesmo prova de um crime. E se essas memórias não eram reais, de onde viriam?

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Elizabeth Loftus precisava, então, criar um experimento que não deixasse dúvidas sobra tal possibilidade - e a maneira mais convincente de fazer isso seria, de fato, criar memórias em algumas pessoas.

Mas como fazer isso sem que o procedimento se tornasse algo traumatizante para seus voluntários e fosse, assim, aprovado pelos exigentes comitês de ética? Sua solução representa, em minha humilde opinião, o mais brilhante, engenhoso e elegante desenho de experimento que já tive o prazer de conhecer. Senão vejamos:

Lost children Com a ajuda de sua assistente Jacqueline Pickrell, Loftus recrutou 24 voluntários para participar da pesquisa. Às famílias desses voluntários, elas pediram que escrevessem três histórias reais de suas infâncias, cada uma com um parágrado de extensão para preparar um breve folheto para o participante.

Mas a essas três pequenas histórias reais, as pesquisadoras acrescentavam uma quarta narrativa, de um fictício episódio onde a criança teria se perdido num shopping center local.

Os voluntários liam, então, as quatro histórias para depois recontá-las com suas próprias palavras. Caso não se recordassem de alguma das passagens descritas deveriam dizer apenas "Eu não me lembro disso".

Ao fim do experimento, o que mais surpreendeu a pesquisadora não foram os números e o seu relativo significado, mas a riqueza de detalhes com os quais as pessoas narravam fatos que efetivamente não vivenciaram. Uns falaram do medo que sentiram de nunca mais ver sua família novamente, outros lembravam de detalhes das pessoas que as ajudaram a encontrar seus pais ou das lojas por onde passaram e outros destacaram, ainda, a bronca que levaram depois do episódio.

Nenhum desses detalhes, contudo, estava nos folhetos entregues aos voluntários. Absolutamente todos haviam sido criados pelos próprios voluntários.

No total, 25% dos participantes aceitaram a fictícia história do experimento que foi batizado "Perdido no Shopping". Muito se discute sobre esse número, especulando que ele seria pequeno demais e pouco significativo dentro do reduzido universo pesquisado. Mas se pararmos para pensar que 25% das testemunhas oculares de crimes podem estar erradas, esse resultado certamente deixa de ser irrelevante. Além disso, não bastaria que uma pessoa narrasse um episódio que não viveu para provar que memórias podem ser implantadas?

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Nosso cérebro não consegue armazenar tudo o que nossos sentidos captam. Seja por questões de capacidade de armazenamento ou de praticidade na hora de processar tais memórias. Assim, como não lembramos de tudo o que nos acontece, selecionamos apenas alguns destaques. Por causa disso, recuperar uma memória não é como abrir um arquivo ou apertar o play num gravador. Essa tarefa assemelha-se mais a assistir a algumas partes desconectadas de um filme e tentar preencher os buracos supondo como deveriam ser. Algo como ver um trailer e imaginar o resto da película.

Quando você se lembra do seu aniversário de cinco anos, você incorpora informações que recebeu mais tarde das histórias de família, fotografias, vídeos caseiros e até de outras festas de aniversário a que foi ou assistiu na televisão. Depois de um tempo, você já não é mais capaz de distingüir suas memórias reais das informações que incorporou posteriormente. E o interessante é que você nem se dá conta que embaralhou tudo na sua mente e que talvez parte das suas memórias nem tenha acontecido de fato - o que no jargão próprio chama-se confusão de fontes.

Carol Travis, uma das autoras de Mistakes Were Made (But Not by Me): Why We Justify Foolish Beliefs, Bad Decisions, and Hurtful Acts citado no texto anterior conta uma intrigante passagem de sua própria infância onde ela viveu uma experiência semelhante. Uma de suas mais queridas lembranças era a do seu falecido pai lendo para ela uma história infantil à beira de sua cama antes de dormir. Mesmo adulta ela era capaz de sentir ainda o carinho paterno e as mesmas brincadeiras que faziam sempre em determinadas passagens do livrinho.

Recentemente, porém, ela havia encontrado o livro ao revirar quinquilharias do passado, armazenadas em algum lugar empoeirado de sua casa. Ao notar a data de publicação da obra, contudo, ficou em choque ao ver que o livro havia sido editado um ano após a morte de seu pai. Quem, então, lia as histórias para ela?

Este episódio, junto com o experimento anterior mostra três importantes características sobre o modo como lidamos com nossas memórias:

1. Como é desnorteante descobrir que uma memória rica e carregada de sentimentos e detalhes é inapelavelmente falsa;

2. Mesmo que tenhamos absoluta certeza de que uma memória é correta, ela não necessariamente o será;

3. Até mesmo os erros e as peças que nossa memória nos prega compõem nossos sentimentos e crenças atuais.

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Um outro fato muito curioso sobre o mesmo tema é narrado pelo neurologista americano Robert Burton no excelente On Being Certain: Believing You Are Right Even When You're Not. Na manhã seguinte à explosão do ônibus espacial americano Challenger, Ulrich Neisser e Nicole Harsch pediram a seus alunos que escrevessem, numa folha de papel, onde estavam e o que faziam no exato momento em que souberam da tragédia.

Challenger_explosion Dois anos e meio depois os estudantes foram novamente entrevistados sobre o mesmo assunto: onde estavam e o que faziam naquele fatídico 28 de janeiro de 1986. 25% dos relatos posteriores foram significativamente diferentes do que constavam em seus textos anteriores. Mais da metade continha algum nível de discrepância e apenas 10% foram precisos em suas memórias.

Alguns dos participantes desse estudo chegavam a questionar suas declarações anteriores, mesmo quando confrontados com suas narrativas escritas de próprio punho. O mesmo tipo de incoerência pode ser visto na literatura relacionada em casos notórios como o assassinato de John F. Kennedy e os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. Aliás, onde você estava nessas ocasiões...?

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Em 1996 George Franklin foi libertado por um juiz federal, após cumprir seis anos da sua pena, baseado em dois argumentos: primeiro, a acusação não poderia ter dito aos jurados que o silêncio de Franklin significava presunção de culpa; e, segundo, o réu teria sido privado do seu direito à defesa, pois no primeiro julgamento seu advogado não pôde exibir as reportagens da época sobre o crime - o que daria indícios sobre as fontes de Eileen para a suposta criação de toda a história. Curiosamente, a promotoria não recorreu dessa segunda sentença, pois sua principal testemunha, Eileen Franklin, havia "se lembrado" de outros homicídios cometidos pelo pai, para os quais George tinha álibis sólidos como rocha.

Em maio de 2000, a APA (American Psychiatrists Association) publicou uma nota oficial com guidelines para os profissionais que trabalham com terapias que envolvem as memórias de seus pacientes, ao lidar com casos de abuso sexual na infância. Algumas abordagens terapêuticas trabalham com recordações de fatos da infância como forma de tratar traumas presentes.

A validade de tal procedimento é questionável, segundo a APA, pois alguns pacientes acusam seus terapeutas de direcioná-los ou ou até mesmo pressioná-los em direção a essas conclusões. Pesquisas recentes, como a de Elizabeth Loftus, mostram que a memória não registra fatos precisamente e ela pode ser alterada através da sugestão de pessoas nas quais os pacientes confiam. A psicoterapia foca-se, geralmente, em experiências percebidas por seus pacientes, mas raramente busca a confirmação de tais fatos.

Por fim, a nota oficial da APA faz algumas recomendações aos terapeutas. Em especial, que evitem fazer pré-julgamentos, notadamente os que atribuam quaisquer dificuldades dos pacientes a casos de abusos na infância - especialmente quando eles não podem ser comprovados. A terapia deve focar-se, nesses casos, em ajudar o paciente a entender melhor o que de fato lhe aconteceu e, assim, tirar suas próprias conclusões.

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Elizabeth Loftus teve um grande problema de aceitação de sua teoria, porquanto elas questionavam a própria tese de Freud sobre repressão de memórias desagradáveis. Mas independente de como pensam as diversas correntes na Psicologia, na Psicanálise ou mesmo na Psiquiatria - temas nos quais sou completamente leigo - o fato é que o trabalho de Loftus abre um importante e decisivo precedente nos procedimentos terapêuticos atualmente utilizados, tal como alerta o comunicado da APA.

Ao mesmo tempo, a questão da memória deve ser vista com mais cautela dentro dos tribunais, na forma como as testemunhas oculares são consideradas nos procedimentos forenses. Quando a memória - que é falha - está a serviço da Justiça - que é cega - corre-se o risco de fazer pessoas inocentes pagarem por crimes que não cometeram. Nesse caso, George Franklin era o homem que não estava lá.

Por essas e outras importantes pesquisas, a Dra. Elizabeth Loftus ocupou o 58o lugar numa lista com os 100 psicólogos mais influentes do século XX, elaborada em 2002 e é a primeira mulher da lista (Freud é o primeiro do ranking, Piaget o segundo, Skinner o oitavo e Festinger o décimo-segundo; mas quando organizada de acordo com a quantidade de citações entre os pesquisados, Skinner é o primeiro, Piaget o segundo, Freud o terceiro, Pavlov o sexto, Festinger o décimo-primeiro, Asch o quadragésimo-primeiro e Milgram o quadragésimo-sexto).

Seus estudos mostram um lado intrigante do modo como nossas memórias são elaboradas e a forma como isso interfere no comportamento humano. Vemos, também, que nossa visão de mundo é altamente influenciada por nossas memórias e vice-versa - e é justamente esse caminho de volta que soa contra-intuitivo. Reescrever o passado parece atentar contra a nossa sanidade mental. Mas quem coloca a mão no fogo por sua própria sanidade mental? No próximo texto, veremos como David Rosenhan questionou as bases dos diagnósticos psiquiátricos na década de 1970 e como passou a enxergar o lado de fora do hospício.

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* Esse texto da própria Elizabeth Loftus descreve vários outros casos semelhantes.

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Leia a Introdução sobre esta série a respeito de famosos Experimentos em Psicologia, além de uma relação dos outros textos já disponíveis.

30/06/2009

Experimentos em Psicologia - Festinger e a dissonância cognitiva

Todo dia a vida nos oferece oportunidades para sermos pessoas melhores. Podemos abrir a porta do elevador para aquele senhor idoso, deixar o carro ao lado passar a nossa frente, ligar para aquele amigo depressivo, poupar um pouco mais de dinheiro, fazer exercícios, ter uma alimentação saudável e até mesmo parar de fumar. Mas escolhemos deixar esses atos de lado.

Diabinho_e_anjinho Todo dia a vida nos oferece, também, oportunidades de sermos pessoas piores. Furar uma fila, avançar um sinal, fechar um cruzamento, comer um croquete na fila do restaurante a quilo, dar uma marretada no Imposto de Renda, faltar à academia. Algumas dessas nós escolhemos sem mesmo nos dar conta de que, no fundo, são atitudes erradas.

Mesmo assim, optando pelas as atitudes ruins e deixando as boas de lado, acreditamos que estamos sempre melhorando. E que nossas decisões são sempre acertadas e há razoáveis motivos para tudo o que fazemos.

Você avançou o sinal porque estava atrasada; fechou o cruzamento porque era a sua vez de passar; comeu o croquete porque o preço do restaurante é abusivo; inventou despesas médicas porque não quer seu suado dinheiro sendo roubado por políticos corruptos; e não foi à academia hoje, mas vai amanhã certamente e vai malhar o dobro.

Como é então que, ao deitar para dormir, conseguimos viver em paz depois de um dia inteiro de cretinices? A verdade, nua e crua, é que não pensamos muito nisso. Como você viu no parágrafo anterior, encaixamos autênticas justificativas aos nossos pequenos deslizes diários de forma tão automática, que eles passam praticamente despercebidos. Mas seriam essas justificativas tão autênticas e honestas quanto gostaríamos que elas fossem? Vejamos então como anulamos as discrepâncias entre nossas ações reais versus nossas íntimas convicções morais.

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Em 1954 Marion Keech - uma dona-de-casa de Chicago - teve uma visão: no dia 21 de dezembro daquele ano o mundo acabaria, afogado num dilúvio de proporções bíblicas. Uma mensagem marcando data e hora para o evento lhe teria sido entregue por uma divindade extraterrena chamada Sananda, diretamente do planeta Clarion. Mas todos aqueles que acreditassem no seu magnífico poder seriam salvos por um disco voador em missão de resgate. É sério, não riam.

No grupo de estudo de OVNIs de que Keech participava, todos acreditaram na sua história e formaram, então, uma espécie de seita destinada a se preparar para os funestos acontecimentos vindouros. Muitas das pessoas envolvidas tomaram drásticas decisões se preparando para o derradeiro apocalipse: largaram seus empregos e famílias, desfizeram-se de seus bens e tudo o mais que representasse algum elo com este condenado mundo terreno.

Leon Festinger, um professor de psicologia de 32 anos da Universidade de Minessota sabia que, quanto maior e mais custosa a decisão, em termos de tempo, dinheiro, esforço ou inconveniência e quanto mais irrevogáveis suas conseqüências, maior o apego das pessoas com o caminho escolhido. Ele leu uma nota no jornal sobre o culto e se interessou pela estória.

O pesquisador imaginava como seria o comportamento do grupo depois que sua previsão se revelasse falsa, dado o comprometimento de todos com suas crenças e atitudes. Quais seriam as reações das pessoas se a profecia não se realizasse? Elas perderiam a sua fé? De que forma elas justificariam o amanhecer do provavelmente seco 21 de dezembro?

Arca de noé Na noite do dia 20, Marion Keech, seus seguidores e o infiltrado Festinger reuniram-se em sua casa aguardando o cataclisma. Próximo à meia-noite, todos se livraram de qualquer objeto metálico que pudessem atrapalhar a chegada do seu transporte intergaláctico.

Às 4:00h da manhã nenhum disco voador havia pousado em Chicago, nem em qualquer outro lugar da Terra nem havia, tampouco, sinais de chuva. Marion Keech irrompe em prantos, para momentos depois receber uma nova e providencial mensagem de sua parceira Sananda: o grupo reunido havia irradiado tanta energia positiva, tanta  luz, que os deuses resolveram poupar este insignificante planeta azul.

Para quem estava de fora, a emenda de Keech soou pior que o soneto. Para quem conviveu com essa presepada, foi uma piada de mau gosto. Para Festinger, no entanto, foi uma pública demonstração de um estranho comportamento.

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Apesar de esse não ser um clássico Experimento em Psicologia em seu conceito mais elementar - pois ele realizou-se por si só, sem intervenção nem iniciativa do pesquisador, relegado a um mero espectador - foi o evento que deflagrou um série de estudos realizados por Festinger na elaboração da sua Teoria da Dissonância Cognitiva.

Num desses estudos, por exemplo, Festinger pagou alunos para contarem uma mentira. Uns receberam US$ 1,00 e outros US$ 20,00. Posteriormente os que receberam menos sentiram-se muito mais apegados a suas lorotas e buscavam mais argumentos para justificá-las. Para o pesquisador, os alunos não se sentiam bem em receber US$ 1,00 para mentir e, por isso, precisavam de outras razões para tal. Já os que ganharam mais logo abandonavam a farsa pois, afinal, receberam um dinheiro razoável por sua integridade.

Festinger batizou esse comportamento de Paradigma da Recompensa Insuficiente*. Será que o primeiro grupo realmente acreditava nas mentiras que contava ou apenas tentava se justificar e reduzir o sofrimento por venderem suas consciências a um preço tão vil?

O amante de Lady Chatterley Noutro estudo, Elliot Aronson e seu colega Judson Mills bolaram um engenhoso experimento para avaliar uma situação corriqueira. Alunos de Stanford, voluntários no estudo, eram convidados a se juntar num grupo para discutir a psicologia em torno do sexo. Mas antes de serem admitidos eles precisariam passar por um ritual de iniciação. Metade do grupo deveria recitar em público as passagens mais picantes e explícitas de "O amante de Lady Chatterley", que na década de 1950 representava o supra-sumo da pornografia. Os demais leriam apenas palavras de conotação sexual contidas num dicionário comum.

Após esses diferentes procedimentos, todos ouviam juntos uma suposta gravação da reunião anterior, que os participantes veteranos desse mesmo grupo teriam organizado. Os diálogos resumiam-se, contudo, a monótonas discussões sobre os hábitos de acasalamento dos pássaros - como as empolgantes mudanças em suas plumagens e seus emocionantes ritos de azaração. Além disso, o ritmo da conversa era propositadamente entediante e desinteressante, sem variação no tom de voz e longas pausas entre as frases.

Finalmente, os voluntários deveriam avaliar a gravação ouvida, de acordo com várias aspectos. Como era de se esperar, os que passaram pelo ritual de iniciação mais leve (ler o dicionário) detestaram a experiência e consideraram-na extremamente sem sentido e aborrecida, confessando-se arrependidos de estarem ali. Já os que sofreram um pouco mais (lendo em público as peripécias de Lady Chatterley) classificaram a mesma gravação como muito interessante e empolgante. Será que esse segundo grupo realmente gostou ou seus participantes estavam apenas tentanto se justificar e reduzir o sofrimento pelo qual haviam passado?

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Basicamente, a Dissonância Cognitiva é um estado de tensão que ocorre quando uma pessoa tem duas cognições (idéias, atitudes, crenças, opiniões) que são psicologicamente inconsistentes. É a velha moral dupla que nos permite tomar uma atitude enquanto pregamos outra.

Narciso_caravaggio Suas raízes estão intrinsecamente ligadas à imagem que construímos de nós mesmos. A maioria de nós tem uma auto-avaliação razoavelmente positiva, segundo a qual nos consideramos competentes, morais e espertos. Mas como somos seres humanos - e por isso passíveis de erros - temos o impulso de nos justificar e evitar a responsabilidade por qualquer ação que se revele prejudicial, imoral ou estúpida preservando, assim, nossa imagem diante do espelho.

Quando usamos uma cópia pirata do Windows em casa, nós nos justificamos dizendo que o original é muito caro, mas que se fosse mais barato nós até compraríamos. E, além disso, a Microsoft já ganha dinheiro suficiente. Quando batemos com o carro, a culpa é sempre do outro, que não te viu, não brecou ou não devia estar ali porque seu IPVA está vencido. Mas a culpa nunca é nossa.

A verdade é que o cérebro tem pontos cegos - óticos e psicológicos - e um dos seus truques mais brilhantes é forjar a ilusória noção de que, pessoalmente, eles não existem. De certa forma, a teoria da Dissonância Cognitiva é uma teoria de pontos cegos; de como as pessoas intencionalmente deixam de enxergar aquilo que lhes desagrade, para que não notem eventos e informações vitais capazes de questionar seus comportamentos e convicções. E somos tão alheios aos nossos pontos cegos quanto o peixe é alheio à água onde nada.

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Essa auto-justificativa tem custos e benefícios, como contam Carol Travis e Elliot Aronson (do estudo dos rituais de iniciação) em Mistakes Were Made (But Not by Me): Why We Justify Foolish Beliefs, Bad Decisions, and Hurtful Acts, um verdadeiro tratado sobre a Dissonância Cognitiva. Para os autores, é ela que nos deixa dormir à noite. Sem ela, prolongaríamos terríveis embaraços. Nós nos torturaríamos com a culpa dos caminhos não tomados ou como navegamos mal por aqueles escolhidos. Agonizaríamos com as conseqüências de quase todas as nossas decisões. Com a Dissonância Cognitiva ficamos livres, portanto, de sentimentos como ansiedade, culpa, vergonha, raiva, estresse e outros estados de espírito negativos.

Forrest-gump-p111 Por outro lado, o hábito de freqüentemente justificar nossos atos mascara nossas dificuldades. Sempre nos dizem que temos que aprender a partir de nossos erros, mas como podemos aprender se nos recusamos a admití-los?

Além disso, há os que cometem enormes exageros nesse maravilhoso exercício de criatividade que é inventar desculpas para nossos tropeços. Algumas pessoas inventam tantas histórias para justificar seus atos que passam a viver realidades paralelas, fazendo inveja até mesmo Forrest Gump. Alguns desses mitômanos chegam a ser patológicos em sua necessidade de auto-afirmação que os leva, via de regra, a uma sucessão de mentiras onde uma vai encobrindo a outra, tecendo um ilusório manto de superioridade.

Por esse motivo nós precisamos de algumas pessoas de confiança que nos digam NÃO de tempos em tempos. Críticos dispostos a estourar nossas bolhas protetoras de auto-justificativas e nos trazer de volta à dura realidade quando nos afastamos demais - e isso é especialmente importante para as pessoas que ocupam posições de poder e liderança.

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As idéias de Festinger provocaram uma verdadeira revolução na psicologia, como conta Lauren Slater em Opening Skinner's Box: Great Psychological Experiments of the Twentieth Century, na medida em que oferecia uma elegante explicação para nossos comportamentos mais bizarros.

Sua Teoria da Dissonância Cognitiva representava, ao mesmo tempo, um desafio ao behaviorismo radical proposto por Skinner pois, segundo este, o comportamento é muito mais motivado pelas recompensas do que pelas punições. Ocorre que, diferente dos ratos e pombos, o ser humano tem o péssimo hábito de pensar e, porque pensamos, nossas escolhas e atitudes transcendem os efeitos de recompensas e punições.

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Do mesmo modo que a Dissonância Cognitiva pode alterar nossa percepção em relação aos nossos atos do dia-a-dia, ela também pode modificar alguns fatos do passado. Nossa memória constrói nossas histórias, mas nossas histórias também podem criar nossas memórias. E, ao contrário do que imaginamos, nossa memória não é algo tão rígido e estático: ela também muda com o tempo. No próximo texto veremos como Elizabeth Loftus bolou um dos mais incríveis Experimentos em Psicologia para desvendar essa intrigante e perturbadora perculiaridade da nossa mente. A seguir, em O homem que não estava lá.

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* Dan Ariely dá outros exemplos muito interessantes sobre isso no seu Predictably Irrational: The Hidden Forces That Shape Our Decisions: imagine que um amigo seu te peça para ajudá-lo a carregar umas caixas na sua mudança. Em nome da amizade você vai. Mas se ele lhe oferece, digamos, R$ 20,00 para a tarefa, provavelmente você se sentirá ofendido e não irá. Existe, ainda, a história do rapaz que vai jantar na casa da namorada e, após o lauto banquete, saca o talão de cheques e pergunta com quanto deve contribuir. Há coisas que fazemos de graça, mas não aceitamos quando alguém quer nos pagar.

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Leia a Introdução sobre esta série a respeito de famosos Experimentos em Psicologia, além de uma relação dos outros textos já disponíveis.

25/06/2009

Experimentos em Psicologia - Latané, Darley e a paralisia coletiva

No texto anterior Stanley Milgram desmascarou, num engenhoso experimento, nossa submissão à autoridade num ambiente opressor, onde o voluntário da pesquisa devia inflingir sofrimento ao outro participante do estudo. Apesar de os indivíduos se sentirem desconfortáveis nessa tarefa, a maioria seguiu o macabro roteiro até o final. Mas o que acontece quando em vez de causar dor a alguém, temos a oportunidade de ajudar e oferecer apoio? Foi o que se perguntaram John Darley e Bibb Latané, cujas teorias passamos a conhecer agora.

KittyGenovese O ano era 1964 e um bárbaro crime chocou os moradores da região metropolitana de Nova Iorque. Catherine Susan Genovese foi atacada por Winston Moseley quando chegava em casa, no Queens, na madrugada do dia 13 de março, sendo apunhalada duas vezes pelas costas. Seus gritos espantaram momentaneamente o agressor que chegou a entrar em seu carro e ir embora.

Mesmo ferida, ela tentou chegar em casa. Minutos depois Moseley voltou, procurou por ela e, ao encontrá-la, tornou a esfaqueá-la. Enquanto agonizava, foi estuprada e US$ 49,00 foram roubados de sua bolsa. Ferimentos em suas mãos mostraram que ela lutou por sua vida durante agonizantes 35 minutos, gritando desesperadamente por socorro.

Quando finalmente a polícia chegou, dois minutos após ter sido chamada, era tarde demais. Kitty, como era conhecida por seus amigos, morreu a caminho do hospital, aos 28 anos de idade.

Seis dias depois, preso sob uma acusação de furto, Moseley confessou o homicídio e foi condenado à pena de morte. Um verdadeiro psicopata, acordou na noite do crime às duas da manhã, deixou sua esposa e dois filhos dormindo e saiu de casa "para matar alguém", segundo suas próprias palavras. Anos mais tarde, ele ainda teve sua sentença reduzida a 20 anos de prisão ou perpétua pela Corte de Apelação de Nova Iorque. Em 2008, aos 73 anos de idade, ele teve seu 13o pedido de condicional negado.

Apesar de toda a brutalidade do assassinato, foi um outro detalhe que teve avassaladora repercussão na mídia: do seu primeiro grito até o momento em que perdeu os sentidos, Kitty Genovese gritou por socorro e implorou por ajuda por mais de meia hora, em frente a diversos prédios residenciais - inclusive ao que ela própria morava. Nada menos que 38 pessoas haviam presenciado o ataque em algum momento, de alguma forma, segundo seus próprios depoimentos mais tarde. Mas ninguém chamou a polícia, como (não) mostraram os registros da central de atendimento.

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Cadáver Praia Vermelha As explicações da época - negação de afeto, banalização da violência, indiferença, agressividade contida, despersonalização dos habitantes das metrópoles - não satisfizeram os jovens Bibb Latané e John Darley. Como psicólogos e pesquisadores eles acreditavam mais no poder da situação em que a pessoa se encontra do que na sua personalidade.

Buscaram entender, então, quais as condições necessárias para que pessoas comuns ignorem pedidos de ajuda - explícitos ou implícitos - e adormeçam sua compaixão, no que se convencionou chamar de Efeito do Espectador (bystander effect) ou Apatia do Espectador (bystander apathy).

(À propósito, a pessoa que está embrulhada num pano na foto acima à direita não está precisando de ajuda. Ela já está morta. Mesmo assim os turistas tiram fotos de recordação. Foto do jornal O Globo de 06/09/2006.)

O enredo básico de seus experimentos era bastante simples: eles simulavam situações de emergência num ambiente controlado e observavam a reação das pessoas enquanto indivíduos isolados ou grupos. Vejamos dois exemplos:

.: O aluno epiléptico: imagine que a leitora aceite participar num experimento destinado a avaliar a adaptação dos estudantes à vida universitária. Em salas separadas, você e mais outros estudantes falarão durante dois minutos sobre os desafios da rotina acadêmica. A comunicação será feita através de microfones e auto-falantes instalados nos locais. Enquanto fala, um dos estudantes relata, constrangido, ter epilepsia e que, em épocas de prova, suas crises costumam ser mais freqüentes. Segue-se o depoimento do outro aluno e depois a leitora expõe suas próprias impressões.

O primeiro aluno volta a falar, mas sua voz está embargada. Com dificuldade, ele gagueja um ainda compreensível pedido de ajuda: "E-eu acho que pre-e-eciso de a-a-ajuda. A-a-a-alguém po-o-o-oderia vi-i-ir aqui me-e-e-e ajudar? A-a-acho que e-e-estou te-e-endo u-u-uma crise...". Assustada, a leitora não sabe o que fazer durante os seis minutos que dura a crise epiléptica. Então se lembra que há outras pessoas participando do estudo. Você se acalma e imagina que alguém deve ter tomado alguma providência e ajudado o aluno em apuros. E assim como outros 69% participantes do estudo, você não faz absolutamente nada. Assim como as 38 testemunhas do assassinato de Kitty Genovese.

Epilepsia Quando alguém bate à porta e entra na sala para dizer que aquela sessão acabara a leitora leva um susto, como que sendo acordada de um sonho ruim. Quando você pergunta sobre o outro aluno, descobre que o estudo sobre a vida acadêmica era apenas o pano de fundo para um experimento sobre a reação das pessoas a situações de emergência. E que as vozes que ouviu eram, na verdade, gravações.

Na variação seguinte do estudo, contudo, os resultados começam a ficar perturbadores. Em vez de um grupo de alunos, eram apenas o voluntário e o "aluno epiléptico". A divergência das respostas em função do tamanho do grupo foram gritantes: em grupos de quatro ou mais pessoas, apenas 31% dos indivíduos procuraram auxilio para o colega; mas quando se via sozinho com o "aluno epiléptico", o voluntário buscava ajuda em 85% das vezes e o fazia nos primeiros três minutos do episódio.

Os pesquisadores perceberam, também, que se o voluntário não tomasse uma atitude nesse intervalo de tempo (três minutos), era improvável que viesse a fazê-lo de fato. Quanto mais esperasse, mais paralizado ficaria.

A influência do tamanho do grupo mostrou-se, no entanto, bem maior do que a do tempo de resposta. Ao contrário do que a intuição indicaria, os indivíduos não se tornam mais seguros ou corajosos na presença de outros. Em situações de estresse, as pessoas parecem se acovardar. Os experimentos de Darley e Latané questionaram seriamente a máxima da segurança dos grupos (safety in numbers).

Alguma coisa na multidão inibiria o comportamento altruísta. A presença de várias pessoas parece diluir nosso sentimento de obrigação para com o próximo. Dividimos o fardo de ter que agir com os que estão à nossa volta, no que eles batizaram de Difusão de Responsabilidade. Latané e Darley perceberam, nesse momento, que Kitty Genovese não morreu apesar de haver muitas testemunhas, mas exatamente porque havia muitas testemunhas. Fosse apenas uma, provavelmente ela teria lhe ajudado.

Outra importante variação do estudo colocava dois amigos como voluntários (reais) e mais o "aluno epiléptico" nas condições do experimento. Os resultados foram os mesmos de um voluntário sozinho, sugerindo que a responsabilidade não se difunde entre amigos.

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Certo, mas e o que aconteceria se a situação de emergência representasse um risco para a própria leitora? Para responder a essa pergunta os autores criaram mais um engenhoso experimento:

Incêndio_02 .: Asfixiada pela apatia: a mesma pesquisa sobre a vida no campus leva a leitora agora a uma sala da universidade com outros dois alunos, para preencher questionários sobre o tema. Depois de responder às primeiras perguntas, você percebe uma densa fumaça entrando pelos dutos de ventilação. Aos poucos a fumaça toma a sala, mas parece não perturbar os outros estudantes. Você começa a ficar alarmada, apesar de perceber que seus dois companheiros permanecem impassíveis. A calma de ambos faz-lhe voltar ao questionário, indiferente.

O estranho comportamento dos voluntários sugere que as pessoas preferem arriscar suas vidas a quebrar um protocolo. Estimam mais a etiqueta do que a sobrevivência. Por isso, quando em grupo, apenas 38% dos voluntários saíam da sala para reportar a estranha fumaça. Mas colocados sozinhos, 75% dos alunos davam o alarme. Ainda assim, os que participaram dos experimentos em grupo não associavam sua falta de ação à presença de mais pessoas na sala.

Trata-se, portanto, de uma situação bem diferente da anterior, na medida em que o voluntário podia ver as reações dos seus pares - ao contrário do experimento com o "aluno epiléptico" onde ficava cada um na sua sala. Um outro efeito entra em ação aqui, a ingorância pluralística: se em determinada situação você não consegue avaliar corretamente o que está acontecendo ("aquele homem está infartando ou é um bêbado?", "isso são tiros ou é um cano de descargas estourado?"), a saída é buscar pistas no comportamento das outras pessoas ao redor. Quando você percebe que ninguém está fazendo nada, conclui que é uma situação normal, sem perigo - e não uma emergência como chegou a pensar.

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Os dois últimos textos desta série sobre Experimentos em Psicologia mostraram facetas pouco gloriosas de nossas personalidades. Tanto a Unanimidade Burra de Solomon Asch quanto o Choque de Autoridade de Stanley Milgram revelaram traços de comportamento dos quais ninguém se apressa em sentir orgulho. No caso da Difusão de Responsabilidade, porém, o cientista social Arthur Beaman, da Universidade de Montana encontrou um brilhante lado positivo, como conta Lauren Slater em Opening Skinner's Box: Great Psychological Experiments of the Twentieth Century. Ela cita o interessante Increasing Helping Rates Through Information Dissemination: Teaching Pays, cujo estudo consistia em simular situações de emergência semelhantes às anteriores. Mas metade dos voluntários lia um resumo das teorias de Latané e Darley antes de começar, além do seguinte modelo de processo decisório:

Primeiros socorros 1. Você, o potencial socorrista, deve identificar que algo está acontecendo;

2. Você deve interpretar o evento como algo onde precisa-se de ajuda;

3. Você assumirá a responsabilidade pessoalmente;

4. Você decidirá que atitude tomar;

5. Você tomará a atidude*.

Com os resultados da pesquisa, Beaman mostrou que o simples fato de conhecer os estudos de Darley e Latané dobram as chances de uma pessoa interceder em favor de outra numa situação de emergência. Não se trata aqui de nenhum encantamento mágico capaz de transformar um ogro num bom samaritano. Apenas conhecimento. Que sem saber e sem querer você também acabou de adquir.

Daqui em diante, só pelo fato de você ter lido esse texto e entendido o que é Difusão de Responsabilidade, queira ou não você pensará nisso na próxima vez em que se deparar com uma potencial situação de emergência. Você entenderá porque ninguém está fazendo nada - nem você. Mas por ter lido esse texto, conseguirá desligar-se do característico torpor coletivo e certamente agirá.

E agora que você já conhece esses princípios e a diferença que isso pode fazer na sua vida - e na dos outros - que tal passar esse texto adiante?

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OK, você já passou o texto adiante, para que seus amigos também saibam o que é a Difusão de Responsabilidade e evitem cair nessa armadilha. Mas o que fazer se, antes de esse texto conseguir rodar o mundo inteiro, você se encontrar numa situação de emergência, precisando de ajuda? Como agir no caso de você passar mal na rua, por exemplo, e perceber que ninguém te ajuda? Você vai lembrar de mim e ver que esse texto louco em que você não levou muita fé estava absolutamente correto?

Há um outro jeito que eu prefiro ser lembrado. Guarde essas valiosas dicas de Robert Cialdini (em Influence: The Psychology of Persuasion): A primeira coisa a fazer é deixar claro para as outras pessoas que aquela é uma situção de emergência, com frases claras: "Estou passando mal, preciso de ajuda". Muitas vezes as pessoas não agem a tempo por não identificarem corretamente o que está acontecendo. A segunda - e mais importante - é escolher alguém dentre as pessoas ao redor e direcionar o pedido de socorro, de forma clara e individual e de preferência apontando: "Você aí, de camisa vermelha, por favor me ajude". Ao indicar alguém, você está responsabilizando-o diretamente. Uma coisa é uma multidão negar socorro. Se forem vinte pessoas, cada um negou 5% de socorro. Outra coisa é uma única pessoa negar 100% de socorro. Ela saberá disso.

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Latané & Darley, Milgram e Asch nos mostraram como algumas vezes somos capazes de atitudes que violam o senso comum. Ignorando apelos, maltratando os outros ou errando de propósito, parecemos agir de maneira equivocada conscientemente. Como conseguimos, então, dormir à noite? Que estranhos mecanismos fazem com que nossa mente justifique e perdoe nossos pecados, assim como nós perdoamos a quem nos tenha ofendido? A seguir, Leon Festinger e a moral dupla da Dissonância Cognitiva.

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* O modelo pode ser visto na íntegra no livro The Social Psychology of Prosocial Behavior , disponível no Google Books aqui.

Disponível no Brasil pela Editora Campus com o título "O poder da persuasão"

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Leia a Introdução sobre esta série a respeito de famosos Experimentos em Psicologia, além de uma relação dos outros textos já disponíveis.

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